#WG-Alienação na relação terapêutica

O que é a alienação ?

Palavra de sentido amplo, desde Sócrates. No sentido moderno, aparece com Karl Marx quando ele trata sobre o trabalho. Ele deriva para instância social, cultural, estrutural que seria alienação política que é sinônimo de ideologia.

Ideologia é uma tentativa de uma produção feita por uma classe, para que o restante da sociedade se torne consumidor não crítico dos produtos de produção dessa classe. Então, cria-se mecanismos de produção para que as pessoas consomem coisas que não precisam, numa espécie de estado natural,  passando a ideia de que a pessoa é produtora do seu modo de viver.  Ideologia é alienação feita em massa. O sentido da alienação é as pessoas consumirem sem as pessoas estarem escravas com a ilusão da liberdade. 

O trabalho (Karl Marx) no sentido ético é um trabalho ontológico, que significa: Eu não nasci plenamente. eu nasci consciente e frustado de que tenho que desenvolver a mim mesmo. Quanto maior essa consciência, maior o equivalente da sensação de frustração.  Uma criança mimada é aquela que quer as coisas sem querer lutar por aquilo. A criança usa toda as forças(manha) para obter aquilo de graça. A alienação tem um custo, é a dependência de quem nos dá a mamadeira. Nesse caso, para dar sentido que somos aceitos na sociedade precisamos estar na moda, que é a mamadeira.   O custo da alienação é a dependência vinculada à uma autoridade fora de nós. E quem cede à essa dependência? Nós mesmo. A alienação então, é uma preguiça , uma covardia em não querer trabalhar a própria identidade. 

Karl Marx vai entender que o trabalhador está alienado à si mesmo e à indústria onde trabalha e “do próprio objeto que trabalha” e ao “próprio objeto”.  Ele está alienado “do próprio trabalho”, porque ao trabalhar, o trabalhador trabalha o dia inteiro e não sai ao final do dia uma pessoa diferente que era no início do trabalho, pois ele não produziu suas próprias competências, suas qualidades, suas dificuldades, ele não foi propriamente autor do seu trabalho.  No mudo artesanal, o sapateiro que faz sapado, além do sapato que é feito ao final, ele se faz sapateiro. Quanto mais sapato faz, mas autonomia vai desenvolvendo. Então ele faz mais do que o produto, ele faz a si mesmo. E o seu produto tem o regiro de sua identidade, tem as características para quem feito, tem o molde do pé para quem fez, mas tem os traços do sapateiro. O seu produto revela a sua existência.  Esse grau e consciência que implica em conceber os nossos limites, inclusive a morte, nos torna profundamente autônomos, autores, mandamos no nosso esfosso e reconhecemos os nossos limites.

Nos tempos atuais, quem compra o sapato leva o registro do dono da indústria, não tem nenhum traço. O empregado está alienado ao processo, não faz o sapato, mas um trecho do sapato, uma parte do processo. Ele não pode dizer que foi o autor, e nem falar que é o trabalhador, pois ele é uma peça. Então ele fica alienado a si mesmo, pois ao comprar o sapato ele não reconhece que é sapateiro. Não é autor consigo mesmo, nem com relação ao sapato ou a profissão. Ele é simplesmente uma pessoa dependente. 

Na alegoria da caverna, a pessoa está alienada. Tudo que ela faz, ele acha que é vida. Mas, alguém conseguiu escapar( não diz como) e se compadeceu (pathos) e voltou para falar para os outros. Para surpresa alguns vão querer sair (filosofia) que é caminhar com suas próprias pernas. Mas outras não.  Platão pergunta: o que você preferiria? ficar na charrua, ser o menor entre os maiores ou ser o mais rico porém dentro da ilusão da caverna? Isso foi passado também no filme Matrix, onde é dado uma pessoa se pergunta… ou eu trabalho(pois ser ético é trabalhar e muito) ou faço outra coisa. Trabalhar contra uma corrente, é ser destruído. Essa é a verdade. Prefere ser rico (pelo emprego que te dou) ou ser um pobre e livre ?

Muitas pessoas não querem assumir a autonomia que a terapia, muitas vezes implica e deseja, respeitando o principio de alteridade, democracia e diálogo que nós já reconhecer como valores magnânimos para todos nós. Não podemos desrespeitar aqueles que precisam da alienação. Se obrigar elas a pensar instalando o Pathos (que é o incômodo da  verdade do autoconhecimento e da relação com os outros), elas não vão suportar e  ao contrário preferir o suicídio físico ou moral ou o homicídio (prefere matar os outros).  Elas preferem acreditar que há qualquer momento irão ganhar na loteria e tudo vai ser diferente. Alguns fazem isso com a sua sexualidade, valores, promessas vãs e nós não vamos contra isso. Vamos a favor da autenticidade.  O que precisamos saber é, se o grau de alienação que a pessoa voluntariamente se colocou e que agora reclama. Muitos reclamam, mas continuam trabalhando. Outros reclamam e dizem, “não quero mudar esse sistema, quero apenas ser rico”. Então, vamos verificar no processo terapêutico  via historicidade nos tópicos(lugares) onde a pessoa tem força existencial. Vamos buscando a singularidade, pois ninguém pé autônomo (ela mesma do mesmo jeito, cada um faz de forma única).  A terapia então, é artesanal. Vamos até ele como hóspede, e para saber como é para ele no mundo dele. Respeitando essa singularidade, os tópicos (que são lugares da existência) e com o nosso processo de alteridade de ir ao mundo dele (colocando em conversação no espaço do mundo dele) faz identificar quais são os tópicos determinantes que dão a sensação de que ele existe. 

Clínica Filosófica

Por exemplo, pessoa possui expressividade nos tópicos 1 e 2. Na medida que são importante e determinante, vou verificar o quanto na vivência de mundo destes tópicos ele suporta a autonomia ou é um confronto violento quanto à dignidade e o direito de ele permanecer em alienação. Então uma pessoa pode não ser não alienada racionalmente, mas se ela for privilegiadamente mais emotiva do que racional, racionalmente ela vai ter um discurso de autonomia, mas emocionalmente (tópico 4) vai viver com alienação preferindo um nível de alienação. Porém se é um alienado, vai reclamar emocionalmente dizendo “eu não aguento mais essa vida que sou vítima”. E aí vamos perceber… quando oferecemos para as emoções uma responsabilidade, se suporta isso ou vai dizer que prefere ficar alienado. Nesse caso, interpretamos a reclamação não como verdadeiro querer sair daquela condição. E aí a reclamação do mal estar pode ser a maneira mais autêntica de ela existir. 

Tem casal que viver reclamando um do outro. Mas não suportam viver sozinho, então não querem separar. Então a reclamação para eles é um estado de alienação melhor do que um trabalho que implica a solidão. 

Uma senhora(cultura interior) dizia pelo pré-juízo(tópico 5) que o seu valor religioso de que o casamento é para sempre. O que Deus uniu nada separa. Por outro lado, o marido a traia constantemente. Para ela, se ela fosse descobrir diante dos outros publicamente que sabia da traição, ela teria que separar mas isso iria ferir o seu pre-juízo de uma boa católica. Então, ela falava, dizia que era contra a traição, e fingia que não queria saber. Pois não queria ter que assumir a responsabilidade. Um dia o marido fez isso na frente dela, de maneira que ela e todas as pessoas viram. O tópico 1 era importante, e ela foi obrigada a se separar. Mas nessa separação, ela não estava pronta, entrou na depressão. Pois preferia viver com mais forças na alienação do que na responsabilidade de autonomia. 

Pergunta: Muitas pessoas almejam passos maiores, mas não consegue sair da zona de conforto, e se sente mal. Nesse caso, a alienação impediria o crescimento da pessoa? Na FC não caberia despertar um choque de realidade ? Tipo.. você vai sofrer e vai ganhar. Então, existem alienações necessárias para manter um equilíbrio. E quando a alienação se torna um problema?

Quem há de dizer o que dever ou não ser tolerado como zona de conforto aceito ou algo perigoso e devemos libertar? Michel Foucault disse que o critério é o de normalidade. E precisamos forçar a desalienação através de química, de terapia e até de processos policiais…. digamos, uma pessoa falando: criança não tem querer, eu é que sei. Então vai escovar os dentes, vou te bater para o seu bem.  Esse exemplo vai para drogados também. Então, obrigamos a pessoa entrar no estatuto da normalidade. Mas quando Michel Foucault questiona os critérios da normalidade, ele vai questionar os conceitos de saúde para inserir no mercado de trabalho ou de consumo. Sigmund Freud dizia que devemos encarar a morte, então tomou como base o medo da morte. Mas isso não é um problema para o Papa. Em filosofia não obrigamos e nem expomos a dor.  Leia a obra de Machado de Assis, O alienista. Freud dizia… passei a vida toda pensando o individuo neurótico numa sociedade normal. Mas, não tenho mais tempo para estudar o contrário… um individuo normal numa sociedade neurótica.  Então, não é uma teoria que vai falar da alienação, mas cada relação. 

Quando Michel Foucault faz uma analise da normalidade, acaba gerando no mundo a aceitação do que é o anormal. Tem um filme que se chama O VIOLINISTA. Um gênio que decide ficar esquizofrênico e fica na rua. Acolheram o cara para fazer terapia química. Ele recupera, e identifica que a normalidade da sociedade é algo ruim. E prefere votar. Outro filme.. JOGOS DE IMITAÇÃO, conta a história biográfica de Turim que inventou um computador para decodificar os códigos alemães. Ele era como um computador, seria o homem mais racional. E quando fez isso, ele foi chamado de herói de guerra. Depois que guerra foi vencida e ele não foi mais útil, pegaram um pequeno detalhe dele… ele era homossexual. E isso era crime na Inglaterra. Fizeram tomar remédio para tirar o desejo (castração química). O desejo no ser humano não é hormonal, é puramente simbólico. Então, tiraram a ereção e mantiveram o desejo. Ele se suicida. 

Se um filho sai do caminho, você vai forçar o cara a voltar nos trilhos. Até na terapia, mas tem um limite para isso. Tento convencer ao meu estabelecimento do que é autoral e autonomia. Tem que parar. Os manicômios não internal o que não é normal. O direito não pode fazer um casamento maléfico com a psiquiatria, criando parâmetros para normalidade. 

Se uma pessoa quer matar uma outra, ela está alienada a um impulso. No consultório diz.. eu quero me matar. Mas entendo que isso não é um legítimo autêntico desejo. Pode ser um processo de autonomia frustrada “estou alienado”. E posso ajudar… mas quando você perceber que é autêntico, você respeita. Ele não vai se matar. Tive no consultório uma pessoa querendo se matar, que disse “ouvi o grito de arrependimento do seu vizinho, segundos antes de morrer, ao dar um tiro em si mesmo…”. Falei, “sim, vai ter o arrependimento”. 

Não vamos favorecer a alienação jamais. Vamos respeitar a alienação, promover o máximo de autonomia possível. Mas os critérios de alienação não pode ser habitados segundo os valores do terapeuta ou da sociedade. Por isso a filosofia clínica não está na área de saúde e não quer deixar as pessoas nem normais ou saudáveis. Ele vai respeitar a singularidade de cada um. E é na relação de cada um vamos temperar o que é ou não alienação e vamos respeitar

Para terminar… 

Quebre o dogma de que ir ao outro não é só Pathos com a OUTRIDADE  com alguém.  Existe alteridade consigo mesmo, com outro e alteridade com o diferentes mundos  (Francisco de Assis conversava com animais). Isso é matemática simbólica. Você pode fazer filosofia clínica com animais, com plantas, e etc…