#FC- Historicidade

VISÃO GERAL

Pakter: Historicidade é o alicerce de toda clínica filosófica. Um processo de coleta não bem feita, a clínica será n boa. Deve ser feita de forma cronológica, que não realize saltos e dê continuidade aos processos. O FC ouve, não faz perguntas para o partilhante sobre o assunto imediato. Apenas escutamos. Pessoa leva assuntos imediatos (queixas), normalmente não é o assunto último a ser tratado.

DIRECIONAMENTOS

Há uma série de cuidados. Não perguntamos “porque” ou “como”, pois iremos direcionar para um submodo(tópico). Se ficar perguntando, provavelmente terá na conclusão uma EP racional.  Não pode contaminar a historia de vida com um dado racional.

HISTÓRIA X HISTORICIDADE

História é uma visão factual de um processo que ocorreu. A historicidade é uma edição, uma interpretação subjetiva de uma história de vida. Quem conta historicidade, está editando sua história. Mesmo que a pessoa lembre de fatos fortes, trata-se de uma historicidade. No consultório em média tem 50 minutos. E esse tempo não é suficiente para contar a historicidade, então basicamente pedimos para contar desde que lembre quando nasceu até os dias de hoje. A pessoa busca em seus arquivos existenciais, a pessoa faz uma arquiologia existencial.

A primeira historicidade (panorâmica) é muito pobre, curta, muito processual (só pontuações). Ela vai levar princípios, elementos salteados. Vai ser uma versão curta, pautados em dados processuais. São pontuações históricas, tipo “quando meu pai comprou um carro”, “quando eu casei”.

DADOS DIVISÓRIOS

Dados divisórios: Ferramenta adaptada por Parkter. As pontuações naturais do sujeito, abre uma oportunidade para fazer uma divisão. E se faz da seguinte forma: identificando como a pessoa organiza a vida (período, fase, etapas). Sendo assim, perguntamos “o que aconteceu entre a etapa x e a y ?”. O objeto do dado divisório é para aprofundar, sem uma contaminação.  Ajuda a compreender uma certa de narrativas, tipo “como era a historicidade antes do objeto de estudo”. “Como foi passar pelo objeto de estudo”, “como foi conviver com esse objeto de estudo?”.

OBJETO DE ESTUDO

Objeto de estudo pode ser a promoção, quando passou a ser mãe, quando perdeu um filho, etc. E com o objeto de estudo temos as situações:  o antes, a relação, a vivência, o que mudou depois.  Temos: Anterior, entrada, adaptação, familiaridade e o depois.

A primeira leva de dados divisórios costuma durar cerca de 2, 3 seções. Há pessoas que duram 10 seções.  O segundo uso dos dados divisórios, é para fazer pesquisas de trechos da historicidade, sem contaminar. Exemplo… pessoa conta da mudança e depois fala sobre o emprego e sobre um vendaval que aconteceu e depois novas conquistas. Se o seu objeto de estudo é querer saber o que aconteceu no vendaval, você então fala:  Conte-me o que aconteceu entre a conquista do emprego e da conquista de nova posição.

PROCESSO DE COLETA DA HISTORICIDADE

a) Historicidade primeira versão (panorâmica) (pobre, visão processual). As pontuações históricas (divisões) estão soltas.
b) Historicidade segunda versão – Contar de forma que respeite as pontuações históricas (divisões) (já com fixação da primeira leva de de dados divisórios). Nesse momento dá para notar que a pessoa tem uma forma de dividir sua história, e as vezes usam 3, 4, 8, 10 ou mais divisões/ pontuações históricas.
c) Historicidade terceira versão (com segunda leva de dados divisórios). Essa segunda leva se dá em função de uma necessidade em compreender com mais dados, como mais informações, com mais riqueza de detalhe.
d) Enraizamento – Necessidade de realizar um aprofundamento. Fogem dos dados processuais(seguem processo, baseado em dados divisórios), e vão para os dados estruturalistas. É uma pesquisa vertical que vai além. Tipo “Me fale mais sobre isso”, “Gostaria de entender mais sobre essa questão”. O enraizamento vai para uma outra abordagem, além do espaço/tempo cronológico. No enraizamento o partilhante apresenta informações que não seria trazidos em momento de clínica.  Um enraizamento pode levar para uma perspectiva. Exemplos:

  • Fale-me mais a respeito do seu jardim de infância.
  • Conte-me como era a sensação de tomar banho no riacho (Direção ao tópico 3)
  • Diga-me com era para você ser “uma mãe” (Direcionamento para o papel existencial de mãe)
  • Descreva como foi a viagem para Itapema.
  • Como assim? Explique melhor isto…

Após o momento de clínica, onde já conhece a EP do partilhante e está fazendo o planejamento dos submodo, pode fazer um enraizamento (uma vez que identificou o tópico 3 como determinante).

Atenção:

  1. Não enraizamos jamais antes da segunda leva de dados divisórios. Pois não sabemos se é seguro enraizar sobre aquele ponto. Muitas pessoas possuem trechos da historicidade ,em que uma primeira perspectiva parece ser tranquilo de ser tratados, mas depois de aplicação de dados divisórios podemos perceber que se trata de um enraizamento inviável e improducente.
  2. Não enraizamos em ponto de dor. Isso pode até parecer um choque ,para quem vem de outras correntes terapêuticas. Não enraizamos, pois não queremos que o sujeito não sofra. Não adotamos a verdade máxima “cada um tem que saber lidar com a sua dor e enfrentar”, cada pessoa lida com suas questões de forma única e exclusiva segundo a sua EP. Jamais aprofundaremos momentos de dor.PONTOS IMPORTANTES: A) A clínica não é para ser uma seção de tortura. B) Em outros casos, algumas pessoas conduzem elementos tais como feridas cicatrizadas/ feridas abertas, mas uma vez enraizada há o surgimento da dor. 3) Uma vez tocada na dor, ela pode expandir para outras partes da EP, fazendo aumentar o problema. 4) Algumas pessoas possuem alimentação por intencionalidade dirigida. Ao dar atenção para os problemas, não há resolução, mas ficarão mais intensos, mais complexos.
  3. Todo enraizamento deve ser justificável: Quando guiamos para o raciocínio, ou para o sensorial por exemplo,  é porque temos uma justificativa clínica para fazer o enraizamento.

NÃO AGENDAMENTO (Karl Proper) 

Agendar significa interferir. Quando agendamos (interferimos) não vemos o que a pessoa quer falar, mas o que eu quero ver. Isso não é próprio do FC.  Agendamento mínimo diz respeito quanto a minha presença já interfere nos conteúdos da pessoa, “contaminando” a sua história de vida.

Cuidados:

  1. Agendamentos mínimos – a nossa própria presença já contamina, preocupação, curiosidade, olhar.. isso já influencia. Devemos registrar a história e, se houver o esquecimento, o FC orienta: “você estava falando sobre tal coisa, por favor siga dali em diante”,  “o que vem depois”, “E o que aconteceu?”.
  2. Uma pessoa em um mal dia pode contar a história em uma versão ruim. Então a primeira versão da historicidade é sempre uma visão panorâmica.
  3. Ao contar a segunda versão da historicidade, haverá um aprofundamento. Devemos usar os próprios argumentos linguísticos. Use os termos que ele utilizou. Exemplo: “Mudei da cidade x para z….”, então o FC fala “Continue depois que mudou para cidade z”.
  4. Depois que coletou a segunda versão, vai dar para ter um entendimento de onde se dever enraizar.  Nesse momento já temos uma visão de como a pessoa utiliza certos modos informais, como se relaciona certos aspectos categoriais.  Nesse caso, é possível lançar novos dados divisórios com intuito de fazer uma pesquisa.

EXPRESSIVIDADE, AUTOTERAPIA, GERADOR DE PROBLEMA, O ESPANTO DO NUNCA

Podemos chegar a compreender a historia de vida, ao coletar a historicidade da pessoa?

Se a pessoa for expressiva,  temos uma grande chance em coletar muitas informações na primeira edição da historicidade. Mas se não for, teremos que aplicar dados divisórios e fazer enraizamentos

Há pessoas que, ao contar a sua história, elas vão fazendo uma análise do que aconteceu. E vão tirando certas conclusões, entendimentos, reflexões: “sabe, depois que contei isso tirei a conclusão que de fato eu fiz a coisa certa mesmo e que se não fosse dessa forma tudo seria ruim para mim.” Elas vão ser perdoando, ajustando, se corrigindo mesmo antes do filósofo atuar.

Outras passos vão acumulando problemas, e piorando cada vez mais.

Há pessoas que NUNCA pararam para reviver suas próprias trajetórias de vida. Quando elas começam a fazer isso, surge um espanto. Acabam descobrindo muitas coisas sobre si.

 

CRITÉRIOS DE LEMBRANÇA

O partilhante utiliza critérios para lembrar sua história de vida. Há pessoas que se lembram somente o  que foi relevante. Outros somente o que tocou afetivamente. Outro, somente o que foi marcante. Tem os que apagam o que é ruim. Tem gente que apenas lembra o que é ruim. Tem também daquelas que lembram o que foi trabalhoso. Cada partilhante tem critérios para contar sua história, e esses critérios podem tanto lembrar coisas, ou para esquecer coisas. Tem os critérios emotivos também, o que não significa que o tópico 4 seja determinante (marcou, alterou, definiu elementos da vida sobre o tópico). Tente resumir em 30 minutos um livro. Você vai usar alguns critérios.

MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS

Tem gente que guarda suas memórias como se fosse fotografias. Como imagens paradas, estanques, exatas. E como os tópicos busca, axiologia e abstração não mostram nenhuma atualização. Essas memórias são como imagens pregadas na parede. Elas olham para o passado, como se vivesse hoje e parece que manteve sempre assim. Esse pensamento gravou de uma forma e permanece ao longo do restante da vida. Tem gente que olha para uma ex-esposa no shopping e grita com ela como se estivesse casado. Não houve uma atualização.

Tem gente que conta as memórias como fotos, mas com um grande número de detalhes. E não querem mudar, dizem que não há como mexer.

Para essas pessoas, não há como mudar a memória, ou mesmo resinificar. O passado não é atualizável. E com isso dizem “nada vai mudar”. E isso eles não importam com a possibilidade de mudar, mas como ficou marcado.

A maioria das pessoas olham para suas histórias e consideram o amadurecimento dos tópicos, e tiram algo positivo. Enquanto outras, continuam olhando fixo como um criança, não como um adulto.

 

A ESCRITA DA PRÓPRIA HISTÓRIA

Quem escreveu ou quem escreve a sua história ? Porque acham que escreveram a história? Porque estão vivendo essa história? Porque estão interpretando essa história? Quem atesta a autoria da história? Viver ou contar atesta que é o autor da própria história ? Aceitaria que alguém escreveu sua história? Aceitaria ser autor e não escritor? Porque a maioria das pessoas fazem questão de falar que são escritores da própria história? 9 em cada 10 pessoas acham que escrevem a própria história de vida.

O principal fator está ligado ao controle. Muitas pessoas não aceitariam que outras tomassem decisões, ou guiassem elas ao longo da jornada. Muitos defendem a autonomia (não querendo perdê-la) e dizem que são autores da própria história.

Como saber se você não passa de um autor que exerce tão bem o papel, e passa a ideia de uma falsa autoria ? Algumas pessoas acreditam ser certos personagens…

Ser autor da própria história não significa ter o controle da própria história. O fato de estar no carro, não tenho o controle da estrada. Pode ser que tenha que voltar.

Como identificar?

  • A partir da historicidade, quais foram os elementos que definiram as direções que o partilhante tomou. Exemplo: pessoa fala que ao entrar na adolescência, queria ser diferente. Será que a escolha dela já estava pré-definida por dado familiar, econômico? O elemento que definiu,  foi o elemento que escreveu.
  • A partir da citação. Exemplo: “Minha vó sempre queria me ver como padre. Hoje eu sou e vivo esse ministério”. São pessoas que seguiram certos agendamentos.

CONHECIMENTO DE SI MESMO

É possível que algumas pessoas nos conheça mais de nós mesmos ? Sim, isso é uma verdade. São pessoas que olham mais para as coisas ao redor, e não olham para si. São conhecedoras do mundo, das coias ao redor, mas não de si mesma. Se uma pessoa vive olhando, te perguntando, te analisando, vendo o que você faz.. .é possível que essa pessoa passe a conhecer mais. Tipo os pais e seus filhos.

AUTONOMIA OU ENTREGA DA EDIÇÃO?

Mesmo que o outro conheça mais de ti, não é indicado que escreva por você. Então a autonomia é melhor do que a entrega da edição. Mesmo que sejam pessoas cultas, com grande conhecimento. Não irão saber escrever. Não irão saber escolher os melhores caminhos para você. Não adianta uma pessoa te conhecer muito bem, mas nunca saberá escrever com base nos seus princípios internos.

Tem muita gente que consegue escrever, de uma forma belíssima. E tem gente que dá graças à Deus por ter pessoas que decidiram a trajetória. E dizem que, se tivesse escolhido iria ter se metido em um monte de problemas.

AUTORIA

Muitas pessoas dizem que a vida está bem em todos os sentidos. Mas mesmo assim a pessoa se sente mal. Entre alguns fatos, há o caso de que não escreveram a sua história. Embora a vida esteja bem, tudo bacana, tudo isso não tem nada a ver com ela. E, não importa quão perfeita esteja a vida, essa vida não é aderente aos seus pressupostos internos. E os partilhantes dizem “essa vida não tem nada a ver comigo”. Tem gente que tá com filhos, casamento, emprego, casa, ganha bem, faz algo que gosta e mesmo assim fala “tá tudo muito bonito, mas isso não tem nada a ver comigo”. E ele vai falar que gosta da mulher, que gosta do chefe, e que nunca traiu. Mas, esse “lugar ótimo” não tem nada a ver com essa pessoa.

A VIDA QUE VOCÊ LEVA

A vida que vocês levaram tinha a ver com os seus pressupostos internos ? Ou viveram segundo algumas necessidades do momento? Será que foi por causa de uma relação, ou algo assim ?

NÓS SOMOS A NOSSA PRÓPRIA HISTÓRIA DE VIDA? 
SOMOS A NOSSA HISTORICIDADE?
MOTORISTA OU PASSAGEIRO?
DIRIGE OU TOMA CARONA?

Não. A historicidade é um rio. Você tá num barquinho, o qual habita seus valores, crenças, estruturas, corpos.

Esse barco transitou em regiões que tinham a ver com vocês? As vezes ele vai transitar em águas mansas, outras vezes vai para o mar aberto.

Esse barco vai passar por diversos lugares, e vai bater nas pedras. E vai parar em outros lugares. E terá outros barquinhos com você. Você está feliz com essas pessoas que estão perto de ti? Você é o elemento da sua historicidade? Muitas pessoas mal aparecem na sua própria história de vida. E as vezes, quando aparecem é por um período curto, específico. Muitas pessoas desaparecem na sua própria história de vida.

Uns possuem um pai, um filho, um elemento que mudam suas histórias. Elas possuem características internas em não ser o elemento principal. Não há nada errado nisso. Mas por vezes elas precisam se voltar para si própria, refletir.

Muitas mulheres, quando dão à luz, fazem dos seus filhos como elementos que irão conduzir sua história.

Quanto ao relacionamento, há pessoas que conseguem escrever a a história conjuntamente, à dois. Outros seguem a vida como caroneiros, e deixam a vida ser definida pelos outros. E até contribuem com a jornada, colaboram, e caminham em conjunto. E há os péssimos caroneiros.

RELAÇÕES ( ESCRITA EM CONJUNTO)

Tem gente que um responsável educa os filhos de uma maneira, e o outro educa de uma outra forma. Alguns não conseguem atualizar os dados.

ANÁLISE DA SUA HISTÓRIA

Você costuma consultar a sua história de vida?
Costuma consultar os registros existenciais?
Pede mais opinião alheia do que considerar sua própria caminhada?
Quantas vezes olharam para dentro?
Quantas vezes consideraram as coisas que estão fora de ti?

Mutias pessoas não analisam os seus próprios registros, e procuram em livros, pessoas, usando outras bases para achar as respostas para as questões internas. A resposta está sempre no sujeito, no seu mundo, na relação dele para com o mundo. Não está em teoria pré formatada.